Aqui você escuta, na minha voz, a primeira carta das Marés Maternas do início ao fim. Pode ouvir com o bebê no colo, amamentando ou de olhos fechados, onde estiver. Se preferir ler, a carta completa está logo abaixo.
Vamos juntas compreender as nossas marés?
Eu amo o mar e amo as águas. E acho que maternidade tem muito a ver com esse universo aquático. Nós, mulheres, podemos viver processos cíclicos e temos experiências corporais com fluidos diversos. Há momentos da vida em que esses fluidos e ciclos ficam ainda mais intensos, como a gestação, o parto e o longo puerpério.
Sangue, inchaços, leite. Hormônios à flor da pele.
Lágrimas, suores. Transbordamentos maternos.
Ondas que vêm e que vão, crescem e diminuem.
Altos e baixos, humores e emoções em movimento.
Marés maternas.
As marés dos oceanos se movem sob a influência da lua. Pensei que não havia imagem melhor para falar do efeito de um filho sobre nosso corpo e nosso psiquismo, e também das nossas luas particulares: o jeito cíclico do nosso corpo e do nosso cérebro, em diálogo com tudo o que a vida e as nossas crias movem dentro da gente.
Quando pensei num nome para esta nossa conversa, eu queria algo que criasse intimidade e conexão entre mães, que dialogasse com os nossos movimentos internos e externos. E esse nome, Marés Maternas, acabou virando também a inspiração para o livro que estou escrevendo.
Eu sou a Josie Zecchinelli, psicóloga perinatal. Há 23 anos acompanho mulheres na gestação, no parto, no puerpério e nos primeiros anos com o bebê. Aqui vou dividir com você o que aprendi escutando tantas mães, buscando base científica pro que compartilho, mas trazendo também mais poesia, humanidade e sabedorias outras que possam nos ajudar a encontrar mais leveza, ou a viver com menos peso essa jornada materna tão intensa. Tudo com muito cuidado.
O mar de cada uma
Eu amo quando o mar fica naquele efeito piscina, com a água quase parada. Dá para boiar, flutuar, e eu não preciso me defender de nada. Quando a maré começa a encher, vêm as ondas e a correnteza, o mar me tira do lugar e eu fico mais atenta, em alerta.
Agora imagine alguém que ama pegar jacaré. Para essa pessoa, o mar ondulado é diversão e desafio. Tem aquela alegria de deslizar até a beira e pensar "uhul, consegui!". E a maré baixa? Para uma pessoa ela lembra "estou em baixa, sem movimento". Para quem ama a piscininha, ela é descanso.
O mar é o mesmo. O sentido que cada uma dá a ele é que muda. A neurocientista Lisa Feldman Barrett, no livro Como as emoções são feitas, mostra que nosso cérebro constrói as emoções a partir das sensações do corpo, das nossas experiências e das palavras que temos para nomear o que sentimos. No mar lá fora, a maré acontece sem pedir licença. Aqui dentro, podemos perceber o nosso mar, dar um nome a ele e escolher o que fazer com o corpo para mudar o movimento.
A prática em 4 passos
Sinta o movimento. Coloque a mão no peito e respire três vezes, soltando o ar devagar. Pergunte: quanto movimento tem aqui dentro agora? Água parada, marolinha, ondas, mar revolto, maré recuada?
Sinta o sentido. Como essa água está para mim, hoje? Agradável, desagradável ou neutra? Dê um nome seu para essa maré: "efeito piscina", "mar de ressaca", "maré de jacaré" ou qualquer nome que faça sentido para você.
Escolha: mais movimento ou menos? Dá para relaxar parada e dá para relaxar em movimento. Se o seu mar pede menos movimento, faça como quem boia: deite, solte o peso do corpo, respire mais devagar, tome um banho morno. Se pede mais movimento, pegue a onda: caminhe, dance com o bebê no colo, balance, cante alto, faça algo pequeno que te dê a sensação de "consegui".
Anote na sua tábua. Uma linha por dia basta: o nome da maré e o que ajudou. Com o tempo você vai conhecendo o seu mar, e quanto mais nomes você tiver para ele, mais caminhos vai ter.
Quando a maré pesa demais
Algumas marés não mudam só com um novo olhar. Sono, comida, água, descanso e colo alheio também movem as nossas águas, e às vezes a maré pede cuidado concreto e rede de apoio. Se a maré pesada durar mais de duas semanas seguidas, ou se ficar difícil cuidar de você ou do bebê, procure ajuda profissional. Pedir ajuda também é saber ler o mar.
Se você sente que não vai dar conta, ou está pensando em se machucar, você não precisa passar por isso sozinha. Ligue 188 (CVV), gratuito e 24 horas, ou converse em cvv.org.br. Em emergência, ligue 192 (SAMU) ou procure o pronto-socorro mais próximo.
O que vem por aí
Aqui nas Marés Maternas nossas conversas vão ser sobre saúde, com foco na saúde mental e emocional das mães e das suas crias, especialmente nos primeiros anos de maternidade. Vou trazer reflexões, práticas simples, informação confiável e, de vez em quando, novidades do meu trabalho e de gente que admiro.
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Perguntas frequentes
Preciso fazer todos os dias?
Não. Faça quando lembrar, quando a maré mudar ou quando precisar de uma pausa. Quanto mais vezes, mais você conhece o seu mar.
E se eu não souber dar nome ao que sinto?
Tudo bem. Comece só pelo movimento: parado, agitado, recuado. Os nomes vão aparecendo com o tempo.
Serve para a gestação também?
Sim. A prática vale para a gestação, o puerpério e qualquer fase da maternidade.
Com carinho,
Josie Zecchinelli
Psicóloga perinatal há 23 anos · CRP 02/22549
Fundadora do Instituto Maternidade Consciente
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação ou acompanhamento profissional. © Instituto Maternidade Consciente.